Já dizia o cantor catalão Pi de la Serra, Se os filhos da puta voassem nunca mais se veria o Sol. Nunca me esquecerei desta frase. Nem de estar às cavalitas dele, lá colocado pelo Zeca Afonso. Os meus pais por perto e, claro, a Natércia. É curioso. Tinha decidido escrever hoje um post a propósito da eliminação do Sporting e de como isso me tinha deixado furioso. De como considerava isso injusto. Que estava farto do futebol português e essas trivialidades todas. Não há nada como uma tragédia para nos colocar as coisas em perspectiva. Estava no jornal quando recebi o telefonema. O meu pai de voz embargada. Estás bem? Tenho uma coisa muito má para te dizer. A Natércia morreu. Como? A Natércia morreu.
Com ela morre uma parte de mim. Trata-se da melhor amiga dos meus pais, minha avó, amiga, a bisa Natas para o Tomás e o Vicente. Foi com ela que aprendi a ver teatro. Foi com ela que percebi o que era ser amigo sem condições entre adultos. Nunca esquecerei o Natal que passei na Ortiga, longe da família, porque o meu pai estava às portas da morte e ninguém sabia o que fazer comigo. Foi ela que me salvou. Foi com ela que ganhei um pouco de cultura. Foi com ela que conheci a Ortiga, Mação, Abrantes, o avô Pires, a barragem, foda-se, como é possível ela ter partido e eu não ter feito nada.
Nunca me repreendeu. Sempre apostou em mim. Confiou. Deu força. Desde a loucura da música ao casamento. Vai em frente, dizia, sempre com um sorriso nos lábios e um miminho escondido na carteira. Passámos juntos Natais, passagens de ano, férias e fins-de-semana. Dias de sol, chuva, na piscina e de lareira acesa. E como os meus pais devem estar a sofrer. E o João Brites, o pessoal do Bando, o que vai ser do Gonçalo, a eterna criança grande que ela tanto estimava.
A Natércia esteve presa. A política tem destas coisas. Sempre que a íamos ver esperava-nos como se ela estivesse cá fora e nós lá dentro. Era ela que nos animava, que nos dava conselhos, que levantava o astral aos que disso precisavam. Mas esteve lá muito tempo. E quando voltou fê-lo com energia redobrada. O Bando deve-lhe muito. O teatro português também. E eu. E o Rui Pedro. Sinto-lhe a falta.
Nos últimos anos afastamo-nos. Por causa dos putos, do trabalho, do Bando ter passado para Palmela, mas principalmente do meu comodismo para a ir ver. A última vez que estivemos juntos foi nos anos do meu irmão. 10 de Março. Ele e a namorada, os meus pais, eu, a Sara e os putos e ela, claro. Porque ela era da família. Porque ela é da família. E como eu lamento não lhe ter dito que ela é tão especial para mim. Sei que já é tarde, tesha, mas aproveito para te dizer. Gosto muito de ti. Mesmo. Até logo.
B